Na foto: o Bozosatã finge amizade com o Nordeste que foi a única região que não o elegeu!
Durante as eleições de 2018, ouvimos dizer que o Programa de Bolsa Família tinha que ser acabado porque, diziam estas pessoas, ele só servia para encher o "bucho de gente preguiçosa" que não queria trabalhar. Este discurso foi elaborado, inicialmente, pela elite econômica do país, e, posteriormente, assimilado por parte dos brasileiros que não o recebiam. Estes brasileiros encotraram alguém que falava isso e que iria fazer disso o palco da sua política: Bolsonaro. Estas pessoas acusavam a população nordestina, que é a maior parte da população brasileira que recebe o benefício, de ser preguiçosa. Agora, dois anos depois, cenas de pessoas no Sertão passando fome se espalham pelas mídias sociais e pela TV. E, ao mesmo tempo, estas mesmas pessoas que criticavam o Bolsa Família agora recebem e querem receber de novo o Auxílio Emergencial. O que isso significa?
Durante a história, o Nordeste, mais especificamente o Sertão, foi retratado como lugar de gente pobre, de fome e de seca. Na realidade, ele é assim mesmo. O sertão foi ocupado, em sua imensa maioria, por escravos, fugidos dos engenhos, e por índios, aqueles que sobravam ainda vivos da colonização genocida do Império português e depois do Império brasileiro. Este pessoal passou a produzir uma agricultura de tipo diferente, de subsistência, ou seja, para mantimento deles próprios. Excluídos pela elite durante a abolição dos escravos - que preferia importar chineses do que incluir a mão-de-obra sertaneja nas usinas de açúcar - o sertanejo ficou sempre à parte do sistema econômico e político brasileiro.
Você certamente deve se lembrar da fome e da seca no sertão, se você for alguém mais velho. No século XX, durante o período ditatorial, o Sertão era um local para onde não se olhava (e ainda tem gente que defende Ditadura sem saber que, por mais que a tortura alí não chegasse, a fome ali tinha lugar, justamente por causa da Ditadura).
Filmes e livros foram cultivando o imaginário do sertanejo da seca. No final do século XX, a industrialização, na transição do regime ditatorial para o regime democrático, empurrou os sertanejos para ocuparem lugar nas fábricas do Sul, em especial de São Paulo. O contingente que migrou do Nordeste para o Sul foi imenso naqueles anos. Como se percebe, o sertão é o lugar mais esquecido da nação brasileira, olhado somente quando interessa ao Sul.
Mas o que explica que muitos dos antigos migrantes nordestinos que passaram a morar no Sul passaram então a assimilar no seu imaginário o passado sofrido do Sertão e a associarem que ele assim era mantido?
Isso se explica pelo fato de que o mesmo imaginário ainda é mantido até hoje. Não faz muito tempo quando um amigo meu veio de São Paulo para um evento na minha universidade e ele me perguntou, ao ver pela primeira vez cair água do chuveiro no Sertão: ué, mas aqui tem água? Eu achava que era tudo seco e que vocês passavam fome! Ou seja, estas pessoas assumem o discurso da elite, do homem branco, do poderoso, sendo que elas próprias tem na sua origem sangue africano e indígena, sangue de quem fugiu do poder pra sobreviver!
É verdade! Há muita gente passando fome! Basta ver os vídeos que circulam para ter uma dimensão disso. Mas o Sertão é muito mais do que isso! É o Sertão da desigualdade, sim, mas também da cultura puljante! É o Sertão da pobreza sim, mas também é o da politização, das pessoas conscientes, estudadas e inteligentes! É o Sertão da solidariedade, do coletivo unido e trabalhando conjuntamente uns pelos outros. Se o neoliberalismo tornou as pessoas individualistas, no Sertão é onde ele mais encontra desafios de se estabelecer (embora tenha conseguido sucessos), dado o seu histórico de coletivismo.
Mas algo ainda não está explicado, que é o porque dessas mesmas pessoas não perceberem a contradição entre elas acharem os sertanejos preguiçosos por receberem Bolsa Família e, ao mesmo tempo, quererem o Auxílio Emergencial.
À isto, cabe a mesma explicação: o Sertão é lugar de seca e de preguiça e o Sul lugar do trabalho. É o mesmo imaginário que permanece. É o passado triste e de fome que permanece na mentalidade dessas pessoas. Não há porque o sertão se desenvolver. Somente o Sul é desenvolvido (e por isso eu posso receber o Auxiílio). Eles não merecem isso.
O Sertão vira entao aquilo que o historiador Durval Muniz chamou de "invenção", ou seja, algo que por mais que contenha um fundo de realidade, torna-se justificativa para políticas desiguais e xenofóbicas. Só isso pode explicar o fato de um sertanejo ter preconceito contra sertanejo. É que ele odeia o passado.
Mas as coisas começam a mudar: com a crise da Indústria, em especial de São Paulo, muitos que migraram para lá começam a voltar ao Sertão, objetivando aqui encontrar uma nova vida. É a guerra de imagens e de mundos que se estabelece. O Sertão da preguiça vira o Sertão da esperança. O Sertão do passado da fome vira o Sertão da abundância.
Quando os brasileiros serão politizados como os americanos, que discutem política todos os dias? Ou como os venezuelanos, para não dizer que queremos americanizar o brasileiro, que sabem de có a constituição venezuelana? Quando descobriremos que a fome e a seca só será combatida com política e não com fé?
Talvez não demore muito pois, com o crescimento do movimento prol impeachment, seja da Direita ou da Esquerda, as coisas começam a mudar!
Fonte: ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz et al. O engenho anti-moderno: a invenção do Nordeste e outras artes. 1994.




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